Em Pederneiras, a hidrovia gera diretamente cerca de 400 empregos, além de indiretos; na Barra Bonita pelo menos 200 famílias vivem da pesca
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| Foto : Malavolta Jr |
O rio Tietê, ao contrário dos outros rios brasileiros, Amazonas, São Francisco, Doce e demais, corre para o Interior. Nasce na Serra do Mar e suas nascentes ficam a 1.027 metros acima do nível, no Parque Nascentes do Rio Tietê, uma área de Mata Atlântica próxima à cidade de São Paulo. Sua história é contada em prosa e versos. Deságua no rio Paraná e ao percorrer esse caminho recebe água de 149 rios e córregos além de passar por 62 cidades. Na região de Bauru ele é considerado limpo e gera empregos diretos e indiretos, além de trazer divisas para as cidades.
O rio possui água límpida e cristalina nos primeiros quilômetros e volta a ter vida na região de Barra Bonita. A poluição começa na cidade de Birita Mirim, onde recebe agrotóxico e fertilizantes vindos das plantações. Começa a morrer em Mogi das Cruzes, onde recebe 60 toneladas de esgoto por dia. A morte definitiva do rio ocorre em Guarulhos, onde recebe 680 toneladas diárias de esgoto. Nenhum peixe ou planta sobrevive nesse trecho. O Tietê chega em São Paulo morto. Águas escuras e fluxo parado.
Difícil acreditar, mas um terço da sujeira do rio é gerada pelo lixo que as pessoas jogam nas ruas. Um projeto de despoluição retirou nada menos que 15 mil pneus entre 2011 e 2012 no trecho da cidade de São Paulo. Só para lembrar, na década de 30 e 40 no trecho que o rio passa por São Paulo eram realizadas competições de remo.
Na cidade de Pederneiras a hidrovia gera diretamente cerca de 400 empregos além dos indiretos. Os impostos recolhidos do transporte de carga via hidrovia reforça o orçamento municipal em torno de R$ 15 milhões. A paralisação do transporte provocou desemprego maciço. Este ano, os postos de trabalho estão sendo retomados. Acredita-se que o transporte de cargas salte de 3 milhões e meio de toneladas transportadas pela hidrovia em 2013 para seis milhões e meio de toneladas em 2016.
O problema é que faltam vagões. A concessionária da ferrovia contratou outros serviços nos dois anos que a hidrovia ficou inoperante, porque se optou em manter os reservatório para gerar energia elétrica em detrimento da navegação. Até que a situação volte ao normal, as cargas estão sendo transportadas pela hidrovia até Pederneiras de onde partem para o porto de Santos, via rodovia.
O rio também garante o ganha pão de mais de 200 famílias de pescadores. São eles que passam a noite no Tietê e pela manhã recolhem os peixes. É bem verdade que por conta de vários problemas, a pesca está escassa. Os pescadores não estão conseguindo mais que 10 quilos de peixe. O insuficiente para a sobrevivência das famílias.
Em Barra Bonita, o Tietê é fonte de renda para o turismo. A viagem pela eclusa atrai anualmente 400 mil turistas. Gera renda para os barcos que fazem a travessia, para os quiosques, para a Praça do Artesanato e para todos aqueles que têm algum negócio na orla. Sem o rio, o turismo da Barra possivelmente não existiria.
Tietê sempre foi navegável
Transporte de café era feito pelo rio no século passado, mas a construção de eclusas nas barragens possibilitou a navegabilidade até o Rio Paraná
O rio Tietê nasce na cidade de Salesópolis e corta todo o Estado de São Paulo. É um rio morto na altura de São Paulo, mas tem vida e suas águas são mais transparentes na cidade de Barra Bonita. O que muita gente não sabe é que o rio já fazia transporte de cargas na época do barco a vapor. Quem conta um pouco da história é o comandante Hélio Palmesan que tem sua família engajada na defesa do Tietê.
“Tivemos um período, por volta de 1900, que o Tietê servia para transportar a safra de café e outros produtos agrícolas. Ele era navegável. O transporte era feito por barcos a vapor. Esse trabalho parou quando começaram a abrir estradas que não existiam na região. Nessa época ele permitia a navegação desde o porto Martins, ligação do rio Tietê com o rio Piracicaba com as fazendas da região. Esse café era descarregado no Porto Martins ou na estação da Sorocabana através de transbordo ele seguia até Dois Córregos. De lá outro transbordo e o café chegava ao porto de Santos para ser exportado para fora do País.”
Quando acabou o transporte pelos navios a vapor, o rio ficou sem navegação. “Alguns amadores ficaram com transporte de areia, era muito acanhado. O Tietê sempre foi a espinha dorsal do Estado de São Paulo. Meu pai, Raphael Palmezan e o comendador João Rays começaram a transportar areia para confecção de concreto.”
O turismo fluvial começou antes da eclusa. “Meu pai foi o idealizador. Começou com barquinho para transportar 12 pessoas por volta de 1966. Ele é quem construiu o barco Cidade Simpatia. O início da barragem foi em 53 e inaugurada em 63. A eclusa e as comportas só entraram em funcionamento 10 anos depois que a barragem tinha sido inaugurada. Ele fazia o passeio de Barra Bonita para a praia de Igaraçu do Tietê. Ele levava as pessoas para a praia pela manhã e as buscava no final da tarde.”
O segundo barco construído por Raphael Palmezan acolhia 46 pessoas. “O passeio se tornou conhecido. Tinha a Ilha do Sossego aqui, onde as pessoas podiam ir. Com a abertura da eclusa, a cidade foi se tornando conhecida pelo turismo. Foram construídas estrutura na margem do rio, começou a melhorar. A nossa hidrovia foi baseada no Vale do Tennesse, nos Estados Unidos. Há eclusas na Europa construídas de madeira. A Europa dispõe de quase 26 mil quilômetros de hidrovia, na América do Norte quase 20 mil quilômetros de hidrovia.”
Engenheiro era visionário
O Rio Tietê permitiu a abertura da primeira eclusa do Brasil, em 1973, em Barra Bonita. Na época das construções das eclusas, o engenheiro Catullo Branco disse que se as barragens não tivessem eclusas no futuro próximo não teria como escoar toda a produção agrícola. Ele era visionário. Os Estados do Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás naquela época já tinham as fazendas maiores de soja do mundo. Ele acreditava que aquela região se tornaria um celeiro do Brasil.”
Palmesan frisa que com o desenvolvimento precisávamos de energia. “Esse engenheiro era visionário. O Brasil é tão rico em rios e tem poucas hidrovias. A do Rio Madeira não pode falar que que é uma hidrovia, porque lá sempre o meio de transporte foi a água. A Tietê-Paraná sempre foi muito importante. Houve uma paralisação no ano passado que gerou um desemprego maciço na área portuária.”
Barra Bonita se tornou conhecida não apenas no Brasil. “É ponto de referência de turismo fluvial. Hoje temos as viagens com almoço a bordo. Temos sete embarcações trabalhando com o turismo fluvial. Minha família vive disso. Tudo o que nossa família construiu veio desse turismo. Temos mais 20 famílias que vivem disso, sem contar o pessoal dos estaleiros. A usina Diamante transporta cana. Os barcos entram dentro da usina e deixam a cana lá.”
Os primeiros transportes foram de cana. “Depois veio o calcário, a soja, madeira e celulose. A hidrovia tem 2.400 quilômetros. O embarque da soja é feito em São Simão, em Goiás. A hidrovia possibilitou a interligação de cinco estados. A hidrovia e o turismo possibilitaram que Barra Bonita se tornasse estância turística e por conta disso, recebe verbas. Anualmente recebemos 400 mil turistas que fazem a travessia da eclusa.”
Porto Intermodal deve chegar aos seis milhões de toneladas
O maior porto intermodal da hidrovia Tietê-Paraná, em termos de volume de cargas, está na região de Bauru, mais precisamente em Pederneiras. Em 2013, a hidrovia transportou em torno de três milhões e meio de toneladas de cargas. A expectativa para 2016 é que quantidade alcance 6 milhões e meio de toneladas de cargas, comenta o vice-prefeito de Pederneiras, Juarez Solana.
“A hidrovia ficou paralisada por dois anos. Houve uma demanda grande de energia. Utilizaram a água para geração de energia. Este ano voltou. Tivemos duas barragens que tiveram problemas: Três Irmãos-Avanhandava e Ilha Solteira. O impacto foi muito negativo. Perdemos muitos postos de trabalho que vêm sendo recuperado agora.”
Quando houve a paralisação, em 2013, o transporte de cargas era de três milhões e meio de toneladas. Pederneiras contribuiu com a maior parte. Transportamos celulose, grãos, farelo de grãos, cana-de-açúcar e areia. Nossa expectativa é chegar a seis milhões e meio de toneladas este ano. Quando transportamos pela hidrovia tiramos das rodovias o transporte de cerca de 170 toneladas para cada comboio.”
O impacto na economia local foi outro item citado pelo vice-prefeito. “A economia local sofreu. Cerca de R$ 15 milhões do orçamento municipal são de impostos das empresas que operam no Porto Intermodal e logicamente de toda a logística que envolve a hidrovia, ferrovia e rodovia.”
As margens do rio é disputada palmo a palmo, enfatiza Solana. “Hoje, temos investimentos grandes nas margens. Tem uma marina com restaurante sendo construída. Empreendimentos de transportes e turismo. Tem loteamentos sendo construídos. Infelizmente não temos mais áreas disponíveis. A hidrovia atraiu empresas multinacionais de transportes. Temos duas aqui.”
Faltam vagões para transportar cargas
O transporte pela hidrovia sofre com a falta de vagões, após a paralisação, comenta vice-prefeito Juarez Solana. “Nos dois anos que ficaram sem fazer o transporte pela hidrovia as empresas que têm a concessão da malha ferroviária contrataram os vagões para outros produtos. Atualmente temos uma deficiência. Faltam vagões para levar os produtos de Pederneiras para o porto de Santos.” Ele explica que os produtos saem de São Simão (Goiás), via hidrovia. “Chegam em Pederneiras, daqui seguem de trem para o porto de Santos. Como há falta de vagões. Essa carga está sendo transportada de caminhões. Lá o congestionamento é grande e o custo aumenta. Tem esse gargalo que acredito será resolvido em breve. A hidrovia beneficia não só a cidade, mas toda a região. Só em Pederneiras gera de 400 a 500 postos de trabalho.”
Mais de 200 famílias vivem da pesca
O ano tem oito meses para os pescadores, mas no período da piracema é proibido pescar no Tietê e demais rios da região.
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Jonathan Henrique Pemporim e Wesley Roberto Diniz complementam orçamento com pesca - Foto: Malavolta Jr |
A colônia de pesca sediada na Estância de Barra Bonita é a maior do Estado de São Paulo. Reúne pescadores profissionais que fazem da pesca seu ganha pão. Há ainda, os pescadores profissionais que complementam o orçamento da família com a pesca eventual. Segundo o presidente da colônia, Edvando Soares de Araújo, a renda pode chegar até R$ 2 mil/mês.
“Entre Barra Bonita e Igaraçu do Tietê tem cerca de 200 famílias que vivem da pesca. Ao longo do rio, em todas as cidades que margeiam o Tietê há famílias que sobrevivem da pesca. Um número expressivo vive exclusivamente da pesca. Esses têm carteira de pesca.”
Apesar de todos os danos ambientais, o Tietê continua oferecendo peixes. “A natureza é generosa. Há várias espécies de peixes como a tilápia, corvina, bagre, traíra, piranha. Em menor quantidade há pintado, dourado e pacu. A maioria dos pescadores vendem direto ao consumidor. Alguns vendem direto para os restaurantes e há ainda aqueles que vendem para os atravessadores que levam ao Ceasa.”
Araújo lembra que nos melhores meses a renda do pescador pode chegar a R$ 2 mil mensais. “Porém o ano para ele tem só oito meses. Na época da piracema, ele não pesca e tem que sobreviver. A pesca começa em 10 de março e vai até 30 de outubro.”
Os pescadores Jonathan Henrique Temporim, 21 anos, e Wesley Roberto Diniz complementam o orçamento doméstico com a pesca. Vivem em Barra Bonita e quando saem para pescar voltam desanimados. “Passamos a noite toda no rio e não trouxemos nem 10 quilos de peixe. Não tem condições de viver da pesca”, lamentam.
De acordo com eles, a enchente somada a poluição da usina comprometeram o rio. “Você joga a rede e ela vem cheia de limbo branco. É um tipo de lodo que corrói até a rede. A usina polui o rio, mas ninguém faz nada porque ela gera emprego e tem muito dinheiro para se defender. Ele lembra que, no ano passado, perdeu rede, tarrafa e ficou com queimaduras na pele. Essa matéria branca que fica presa na rede, queima a pele.”
Diniz é enfático em dizer que peixe grande não se pesca mais no Tietê. “Pelo menos nesse trecho do rio. Da ponte para baixo não pega nada. Aqui ainda é possível pescar tilápia, cascudo e piranha. Mas dourados grandes é quase uma missão impossível.”
Outro pescador profissional que preferiu não se identificar confirma a versão dos dois. “Há dois anos lutamos contra a poluição do rio. Já tivemos queimaduras por conta da poluição que a usina despeja no rio. Fizemos de tudo, chamamos a imprensa e eles não tomaram nenhum providência. Os peixes vão embora daqui. Da ponte para baixo não se pesca peixe nenhum. O que eles não pensam é que chegará um dia que não teremos mais peixe no Rio Tietê. Passo a noite toda no rio e pela manhã trago menos de 10 quilos de peixe.”
O Rio Tietê é fonte de lazer para o aposentado Antônio de Freitas, 79 anos. “Eu moro aqui e por ser aposentado posso vir durante a semana pescar. Hoje vim com meu filho. Aqui é o local onde relaxo. Deixo os problemas em casa e na beira do rio, observando a água eu refresco minha cabeça. Trago lanche e passo o dia aqui. Muitas vezes não pego nenhum peixe. Nos outros, levo alguns para casa e faço um prato saboroso.”
Comércio na praça
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Comerciante José Maria Alves Silveira vende artesanato na Orla Turística de Barra Bonita há 33 anos |
Na orla de Barra Bonita há a Praça do Artesanato que vive do turismo que o Tietê gera. O comerciante, José Maria Alves Silveira tem um boxe há 33 anos no local e diz que o trabalho proporciona conhecimentos. “O que seria de Barra Bonita sem o Tietê. O rio faz parte é uma complementação da cidade, a cidade não vive só do Tietê, tem a agricultura, mas ele é um motor propulsor do turismo. O comércio da Praça de Artesanato não existiria sem o rio. O Tietê é o foco direto e indireto do turismo. Os turistas movimentam o comércio daqui.”
Para ele, cada cidade tem as suas característica. “Brotas tem as cachoeiras, Bauru sem o comércio e Barra sem o Tietê faltaria algo. Nesses 33 anos que estou aqui nesse boxe conheci gente do Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul, gente do exterior que chegam para fazer a passagem da eclusa. É uma viagem diferente. Falam muito do canal do Panamá, aqui é igual. Temos as empresas que fazem o transporte de carga. O Tietê é isso.”
Segundo ele, o forte do comércio de artesanato são os finais de semana e feriados. “Durante a semana chegam os estudantes de São Paulo e da região que visitam a cidade em busca de conhecimento sobre o rio. Na Capital ele é poluído, aqui ele é limpo. Todos nos procuram para levar uma lembrancinha para casa. Tem que ser um produto bom, bonito e barato.”